sexta-feira, junho 13, 2008

Catástrofe

(...)

Mas, na realidade, a eloqüência precede a dramatização e dá uma razão a ela: teatro e existência teatralizada somente são por causa do discurso. Ou melhor, da discursividade. Isso significa que o Unheimlich é essencialmente uma questão da linguagem. Ou que a linguagem é o locus do Unheimlich, se de fato esse locus existe. Em outras palavras, a linguagem é o que "aliena" o humano. Não por ela ser a perda ou o esquecimento do singular, já que por definição a linguagem abarca a generalidade (este é um refrão freqüente, é um antigo motif derivado das chamadas filosofias da existência); mas porque falar, deixar alguém ser apanhado e arrastado pelo ato da fala, acreditar na linguagem, ou mesmo, talvez, ficar contente ao tomá-la emprestada ou ao submeter-se a ela, é "esquecer alguém". A linguagem não é o Unheimlich, embora somente a linguagem contenha a possibilidade do Unheimlich. O Unheimlich aparece, ou melhor, colaca-se (e sem dúvidas que aí o faz, sempre, já) – algo muda no homem e o desloca do humano, algo no homem mesmo se transtorna, talvez, ou se torna, expulsando-o do humano – com uma certa postura na linguagem: a postura "artística", se desejar, ou mimética. Ou seja, a postura mais "natural" na linguagem, desde que se pense ou pré-entenda a linguagem como mimese. Nas infinitas contradições do "artístico" e do "natural", na conivência lingüistica, o Unheimlich é, finalmente, esquecimento: é esquecer quem fala quando falo, o que acompanha claramente o esquecer para quem falo quando falo e quem ouve quando sou falado. E, movendo-se sempre nesse sentido, esquecer do que se fala.

O motif do esquecimento e do transtorno (reversão) indica que aqui o Unheimlich, por causa da linguagem, é a catástrofe do humano. E isso explica que a poesia – o que Celan chama de poesia ou tenta salvar com o nome de poesia, removendo-a e preservando-a da arte – é, "sempre", a interrupção da linguagem (...).


(Philippe Lacoue-Labarthe. In: La Poésie comme expérience)

(tradução: Thiago Ponce de Moraes)

1 Anátemas

Blogger Odorico Leal disse...

Ando atrás desse livro, mas, ao que parece, a solução é mesmo a amazon. Olá,

6:26 PM, outubro 14, 2008  

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