sábado, novembro 17, 2007

João Cabral de Melo Neto VI

Catar feijão

Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebra dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com risco.


(João Cabral de Melo Neto. In: A educação pela pedra)

2 Anátemas

Anonymous Anônimo disse...

ah! a educação pela pedra. rs. agora, sim. poemas à altura do dono do blog e do leitor. abração - sem celeumas - pra tu. pm - que é - não duvide - do bope.

7:56 PM, novembro 17, 2007  
Blogger Julia disse...

Gostou é? Hoje já tem coisas novas por lá!

Ah, Poncinho, adooooro esse Catar Feijão. Acho que adoro tudo...

Ah, parabéns! (em mais um dos muitos meios de comunicação nos quais eu te desejei parabéns! rs)
Beijoca

8:56 PM, novembro 18, 2007  

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