sexta-feira, setembro 14, 2007

Ricardo Reis VII

Um poema é a projeção de uma idéia em palavras através da emoção. A emoção não é base da poesia: é tão-somente o meio de que a idéia se serve para se reduzir a palavras.
(...)
Em tudo o que se diz - poesia ou prosa - há idéia e emoção. A poesia difere da prosa apenas em que escolhe um novo meio exterior, além da palavra, para projetar a idéia em palavras através da emoção. Esse meio é o ritmo, a rima, a estrofe; ou todas, ou duas, ou uma só. Porém menos que uma só creio que não possa ser.
A idéia, ao servir-se da emoção para se exprimir em palavras, contorna e define essa emoção, e o ritmo, ou a rima, ou a estrofe são a projeção desse contorno, a afirmação da idéia através de uma emoção, que, se a idéia não contornasse, se extravasaria e perderia a própria capacidade de expressão.
(...)
Na palavra, a inteligência dá a frase, a emoção, o ritmo. Quando o pensamento do poeta é alto, isto é, formado de uma idéia que produz uma emoção, esse pensamento, já de si harmônico pela junção equilibrada de emoção e de sentimento à frase e ao ritmo, e assim, como disse, a frase, súbdita do pensamento que a define, busca-o, e o ritmo, escravo da emoção que esse pensamento agregou a si, o serve.


(Ricardo Reis. In: Ficções do Interlúdio)

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